Série Vozes Pop Rua inicia destacando a atuação da OSID no atendimento humanizado a população de rua
Supervisora do Centro de Convivência Irmã Dulce dos Pobres, das Obras Sociais Irmã Dulce – OSID, Lília Araújo é a primeira entrevistada do Vozes Pop Rua, série de entrevistas da Defensoria Pública do Estado da Bahia – DPE/BA que tem por objetivo compartilhar e dar voz às experiências de pessoas que vivem em situação de rua e de profissionais que atuam com essa parcela da população. Especialista em Atenção Integral aos Usos e Usuário de Drogas, Lília também é sanitarista e socióloga.
Convivendo diariamente com pessoas em situação de rua, que buscam atendimento na OSID em Salvador, Lília Araújo faz uma análise de como o Centro promove o acolhimento, principalmente, em tempos de pandemia – o que agravou a vulnerabilidade dessas pessoas. A supervisora detalha ainda os desafios na aquisição de alimentos e itens de higiene para continuar cumprindo sua missão – a de cuidar, preservar a vida e o vínculo com cada um de seus atendidos.
O que são as Obras Sociais Irmã Dulce e quais atividades tem desenvolvido antes e durante a pandemia na rua?
As Obras Sociais Irmã Dulce – OSID nasceram no dia 26 de maio de 1959, tendo como sua fundadora a Santa Dulce dos Pobres. A instituição é fruto da trajetória de amor e serviço e da persistência da religiosa que peregrinou durante mais de uma década em busca de um local para abrigar pobres e doentes recolhidos das ruas de Salvador. As raízes da OSID datam de 1949, quando a Irmã Dulce, sem ter para onde ir com 70 doentes, pediu autorização a sua superiora para abrigar os enfermos em um galinheiro situado ao lado do Convento Santo Antônio. O episódio fez surgir a tradição de que o maior hospital da Bahia nasceu a partir de um simples galinheiro.
Atualmente, a entidade filantrópica abriga um dos maiores complexos de saúde 100% SUS do país, com cerca de 3,5 milhões de procedimento ambulatoriais por ano, na Bahia, a usuários do Sistema Único de Saúde – SUS, idosos, pessoas com deficiência e com deformidades craniofaciais, pessoas em situação de rua, usuários de substâncias psicoativas, além de crianças e adolescentes em situação de risco social. A organização conta com um perfil de serviços único no país, distribuídos em 21 núcleos que prestam assistência à população de baixa renda nas áreas de Saúde, Assistência Social, Pesquisa Científica, Ensino em Saúde, Educação e na preservação e difusão da história de sua fundadora.

 
O Centro de Convivência Irmã Dulce dos Pobres – Compondo este universo está o Centro de Convivência Irmã Dulce dos Pobres, o qual faço parte. Trata-se de um dispositivo da Rede de Atenção Psicossocial que tem sua atuação voltada para criação de espaços de inclusão e circulação das diferenças. O Centro tem três frentes de trabalho: espaços de trocas e produção de subjetividades, por meio das oficinas e atividades coletivas, alcançando um público referenciado pela rede de saúde mental ou por demanda espontânea; cuidado na rua, pautado no conceito de clínica ampliada e redução de danos; e por fim, uma ação conjunta com a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia – Sesab, em parceria com o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas Gregório de Mattos, no campo da educação permanente, junto a rede de saúde mental da Bahia.
Ação na rua – Antes mesmo da pandemia, a equipe já tinha uma atuação sistemática na rua, nos locais de concentração de pessoas em vulnerabilidade, alcançando um público heterogêneo (pessoas em situação de rua, usuários de substâncias psicoativas, trabalhadores informais, pessoas em situação de prostituição), o qual tem em comum a extrema situação de exclusão e sensação de menos-valia.
Na atuação, estava a abordagem face a face, escuta, acolhimento e vínculo, encaminhamentos para rede de cuidado, conforme necessidade e desejo de cada sujeito. Sempre foram ofertados alguns procedimentos básicos de saúde e orientação sobre cuidados e prevenção de agravos, além de rodas de conversa sobre temas demandantes diversos, enfatizando saúde e cidadania, de forma ampla.
Compreendendo os limites e possibilidades de cada dispositivo disponível na área de abrangência do Centro Histórico e Itapagipe – CCIDP, outro aspecto importante do trabalho, e condição para a integralidade do cuidado, é a articulação com os pontos rede.
Covid-19
Com a pandemia, alguns aspectos do cotidiano foram salientados, ressaltando a importância de cuidar da alimentação, da higiene, do distanciamento social, da aquisição de novos hábitos e consumo de novos produtos (álcool, mascara...). Tudo isso concomitantemente com o fechamento de estabelecimentos comerciais, com a redução das possibilidades de realizar "bicos" e outras atividades do "corre" para garantir o alimento e suprir outras necessidades. A rede de suporte daqueles que estão em situação de rua ficou mais fragilizada! Na rua, observamos pessoas assustadas, em situação de maior abandono, fome, medo e exposição a diferentes níveis de violação de direitos.
Diante dessa conjuntura, a OSID, unida em diferentes núcleos, decidiu mobilizar campanha para aquisição de alimentos e itens de higiene. Além da presença dotada de sentido, a equipe passou a fornecer almoço, através da disponibilização de quentinhas, fruto dessa articulação com outros núcleos e comunidade. Além das quentinhas a equipe agregou às ações de saúde, conjunturalmente, a disponibilização de lanches, máscaras, kits de higiene e eventualmente, kits roupa e cobertores. A inclusão destes insumos, numa perspectiva de cuidado, preservação da vida e do vínculo, no momento tão delicado da existência humana.
Como sua trajetória de vida a levou a fazer parte da equipe e qual seu papel neste momento?
Vários caminhos me trouxeram a essa linda e importante Obra. Nunca fui muito religiosa, mas sempre admirei a coragem e o aspecto de vanguardista que me faz fã da história de Irmã Dulce. Sempre considerei uma mulher forte, militante, iluminada e à frente do seu tempo.
Entretanto, penso que as pessoas, a inquietação com as situações de desigualdade e pobreza que me aproximaram desta instituição, por sua missão. Como socióloga, defini meu campo de atuação profissional com muita clareza do público que gostaria de trabalhar.
Venho de experiência de trabalho comunitário e acadêmico. Iniciei minha experiência profissional com meninos e meninas em situação de rua, passando a me dedicar (desde 1995) as pessoas usuárias de substâncias psicoativas  (CETAD/UFBA e ARD-FC/UFBA), onde acessei mais de perto questões condicionantes e determinantes do processo de saúde e doença, incluindo pobreza, estigma, racismo, violência, exclusão, entre outras. Concomitantemente, estava na gerência de Unidades de Saúde da Família e, em seguida, na Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, onde participei da Comissão Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento de políticas voltadas para Pop Rua, que me abriu outras janelas.
Na supervisão de equipes de Consultório na/de Rua, tomei conhecimento da seleção e resolvi concorrer a uma vaga de supervisão no Centro de Convivência dispositivo que, pela sua natureza, trabalha com a diversidade, a transversalização dessas várias situações, tendo a arte como mediadora. Eu escolhi e fui escolhida!
Meu papel hoje é dar suporte à equipe na organização dos processos de trabalho, na casa, no cuidado em saúde mental às pessoas que estão nas oficinas. É também, reconhecendo nossos limites de atuação, estar na articulação junto aos parceiros. E, principalmente, atuar junto à equipe de campo na condução do trabalho na rua, que, embora aconteça pelo uso de tecnologia leve, relacional, tem grande complexidade, notadamente em época de pandemia. Precisamos manter acesa a chama do olhar e a postura acolhedora, em abertura para o novo normal que está surgindo.
Temos um sonho, um desafio encantador de incluir práticas integrativas e complementares dentre nossos procedimentos ofertados à pop rua, no trabalho de campo.

O que mudou no território em que atua e como você avalia os impactos destas mudanças para a população de rua?
Pela minha formação, não é muito tranquilo falar sobre mudanças sem organização e análise de dados, mas posso referir o que tenho escutado da equipe. De acordo com os relatos, tem-se uma situação inicial, logo no surgimento da pandemia, onde observavam-se situações de pânico e insegurança diante da gravidade epidemiológica; escassez de recursos materiais e simbólicos para lidar com toda carga e demandas de cuidado trazidas pelo coronavírus, especialmente por aqueles que não têm para onde ir.  Por outro lado, foram observadas maiores manifestações de solidariedade com o aumento de doações. O que também escancarou a gravidade da escassez. Também observávamos a dificuldade de acesso a um bem básico: água para beber!
Com o passar o tempo, começa-se a observar o aumento de aglomerações, pessoas sem máscaras ou com uso incorreto da mesma; aumento do número de pessoas nas ruas, inclusive crianças e gestantes; o uso mais abusivo de substâncias psicoativas, sugerindo uma ampliação do sofrimento psíquico. Uma outra questão tem sido o aumento da violência.
Há um relato ou situação mais marcante no seu trabalho na rua nesse contexto de Pandemia que você possa compartilhar?
Quando vamos ao encontro do outro, é inevitável o afeto mútuo. São muitos casos, muitas situações de dor e de superação, mas também de trocas.
Me veio à memória uma idosa que encontramos na Cidade Baixa. Andava cabisbaixa com passo cansado, com um saquinho na mão, como se tivesse procurando algo no chão (era o cansaço, a fome). Ao avistá-la, a equipe se dirigiu até ela que, em prantos, quase se ajoelhou e agradeceu pela presença e pelo alimento que acabara de receber. Na mão, o saco continha algo muito valioso: um pedaço de pão que havia guardado para o almoço.
A vida dessa senhora traduz e exemplifica a complexidade de uma situação de desamparo de várias pessoas, que envolve questão social, geracional, gênero e, sobretudo, de dignidade humana.
Quais as suas expectativas e perspectivas para um novo normal no futuro e pós pandemia?
Provavelmente, precisaremos de atenção maior à saúde mental desse segmento e proteção à vida, sendo de extrema importância o fortalecimento das articulações em rede e ações conjuntas.
Por outro lado, penso que um evento dessa magnitude deve deixar algumas lições, que, ao se tratar de saúde, de vida, as cercas não funcionam muito. É imperativo pensar em termos de coletividade.
 
De Assessoria de Comunicação DPEBA
Produção: Tunísia Cores e Jész Ipólito 
Produção Gráfica: Antonio Félix
Edição e revisão: Arthur Franco e Vanda Amorim

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